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Cuidado: as enquetes parlamentares podem ser mais importantes do que parecem

Site da Câmara de Deputados

Gizmodo, 19/02/2014 10h14

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Entre 2009 e 2010, estudei cuidadosamente a opinião dos parlamentares brasileiros sobre liberdade de expressão. Estudei relatórios, votos e justificativas de projetos para entender a visão de deputados e senadores sobre o assunto. Tive uma surpresa relativamente positiva (eu esperava muito menos), mas, no meio do caminho, acabei encontrando as opiniões de vários deles sobre o papel da tecnologia na sociedade. Afinal, liberdade de expressão vem se tornando um direito cada vez mais digital, digamos assim, já que boa parte das nossas comunicações é feita pela internet.

Alguns parlamentares tinham visões bem modernas sobre o assunto, fruto tanto do interesse no setor quanto de assessorias técnicas competentes (sim, é verdade: algumas assessorias de parlamentares em Brasília são absurdamente competentes, como testemunham vários jornalistas que trabalham na capital). Mas uma grande maioria não tinha a menor ideia do que estava fazendo. Eram projetos autoritários, mas autoritários não só por caráter: eram profundamente ignorantes sobre o papel da tecnologia nas nossas vidas, especialmente naquilo que tange às gerações mais jovens. E, como a gente sabe, quanto menor o conhecimento sobre o assunto, maior a chance de termos opiniões erradas e, frequentemente, extremadas sobre um assunto.

Talvez você não se lembre, mas até 2009 políticos e cidadãos não podiam usar as redes sociais para pedir votos ou para defender partidos, plataformas ou candidatos. Essa ideia foi bastante defendida pelo ministro Joaquim Barbosa, então no Tribunal Superior Eleitoral. Para ele, liberar o uso das redes sociais significaria abrir espaço para abuso do poder econômico. Segundo Barbosa, limitar as propagandas ao site do candidato ou do partido era uma forma de garantir que todos os candidatos disputassem sob as mesmas condições. Na minha dissertação, argumentos semelhantes apareceram, várias vezes – como se não fosse possível, por exemplo, criar blogs anônimos hospedados em outros países. Para vários deputados e senadores, a Internet ainda é uma enorme desconhecida, embora isso venha mudando aos poucos. E, durante as manifestações de junho de 2013, como vários parlamentares disseram, pela primeira vez eles se deram conta do poder de organização e mobilização pela internet. A reação foi rápida. Alguns meses mais tarde, a Câmara tentou superar o atraso e organizou um Hackathon. E, agora, o parlamento tem se valido, e muito, das enquetes – sim, as enquetes, aquela forma de medir as opiniões das pessoas que foi muito presente nos primeiros anos da internet no Brasil e que continua sendo usada em alguns lugares.

A Câmara colocou no ar uma página com diversas enquetes, sobre os assuntos mais variados. Inclui temas como a revogação do Estatuto do Desarmamento, a definição de família como a união entre homem e mulher, a descriminalização das drogas, a permanência dos exames da OAB e o incentivo ao uso de bicicletas. O problema é que a gente não sabe, ainda, se e como os parlamentares vão levar isso a sério. Aparentemente, vão – vários deputados vêm conclamando seus seguidores no Twitter e no Facebook a votar nessas enquetes da Câmara. O próprio parlamento está divulgando essas enquetes ardorosamente, e várias delas já apareceram na minha timeline no Facebook, sobre os assuntos mais variados.

Na dúvida, portanto, é melhor votar. Eu já votei em todos os temas. Como a gente bem sabe, assim que a gente descobre a internet, fica encantado por todas as suas maravilhas. Acha que ela vai resolver todos os nossos problemas – e demora a perceber quais são nossos problemas e que problemas o uso da internet pode causar. É ótimo que os parlamentares queiram saber o que a gente pensa. Enquanto a gente não sabe se eles vão mesmo levar a sério, é melhor votar. Só por via das dúvidas…

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